quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

As consequências da maior greve da UNESP

Professor e aluno explicam suas visões em relação a maior paralisação da história da Unesp


Por Bruna Hirano


A Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) passou pela a sua maior greve de sua história, em termos de duração, este ano. Depois de 116 dias de paralisação, docentes e técnico-administrativos encerraram a greve ao alcançar um reajuste salarial, de 5,2% pago em duas parcelas - 2,57% respectivamente em setembro e em dezembro – além de 28,6% de abono que se refere à reposição do salário, entre os meses de maio e setembro, e acréscimo de R$250 no vale alimentação.
A greve ocorreu devido ao congelamento dos salários por parte da Reitoria e pela falta de comprometimento em não cumprir com o reajuste de 5%, em agosto deste ano, e 3,415% de ajuste para os docentes que havia proposto no movimento de greve do ano passado. A recente paralisação foi resultado dajunção de pendências e problemas mal resolvidos desde 2013.
Falta de comprometimento da Reitoria

A decisão de congelamento dos salários pelos reitores das três universidades estaduais de São Paulo – USP, Unicamp e UNESP – foi bastante questionável na visão do docente AngeloSottovia Aranha, professor da FAAC (Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação) da Unesp de Bauru. “Essa decisão dos reitores das três universidades foi baseada em argumentos muito questionáveis, pois há reserva financeira para o pagamento e esse arrocho salarial tem caráter político. Há mais de 20 anos o governo estadual de São Paulo tem feito o possível para sucatear a educação pública, e o tem conseguido no ensino fundamental e no médio. A resistência dos funcionários das universidades é que tem ajudado a garantir a autonomia financeira e a autonomia de ideias das três universidades públicas do estado de São Paulo.” afirma o professor que participou ativamente do movimento de greve dos docentes.

Empecilhos para chegar a um acordo

Durante o período em greve, o principal empecilho foi a estratégia autoritária da Reitoria em não dialogar e tornar difícil qualquer comunicação que chegasse à um acordo. Sottovia conta que quando havia diálogo, a administração jogava dados que não tinham nenhuma relação com o problema que estavam enfrentando, o que tornava ainda mais difícil qualquer negociação. Devido à isso, a greve se estendeu por quase quatro meses.
Após o período conturbado de paralização e de todos os empecilhos enfrentados, Sottovia acredita que a greve atingiu seus objetivos em termos de organização. “Docentes e funcionários se uniram, novamente, e também os estudantes. Conseguimos mostrar aos pelegos que pretendem operacionalizar a operação de terceirização indireta das universidades públicas que ainda temos força e que a nossa preocupação não é apenas a manutenção do poder aquisitivo.” finaliza.

Rotina acadêmica prejudicada

A greve dos docentes e técnico-administrativos foi necessária e houve objetivos que foram atingidos, porém faltou mais comunicação com os alunos, de acordo com Klaus Aires Alves, estudante de Relações Públicas da Unesp de Bauru. “A greve era o exercício de um direito, tinha uma pauta clara, já que o congelamento de salários foi algo bastante inédito, e um precedente complicado de aceitar, mesmo para os professores, que são uma categoria bem remunerada. Faltou apenas mais comunicação com os alunos, teria sido um sinal de respeito, já que fomos bastante prejudicados. Para saber dessas informações eu tive de buscar por conta própria.” explica ao ser questionado sobre o seu posicionamento em relação à greve.
Apesar de bem sucedida, houve pontos que prejudicaram os graduandos, como o atraso na rotina acadêmica e no calendário. Klaus acredita que poderia haver mais medidas possíveis antes de chegar à decisão final de greve. “Mesmo com o sucesso da greve, não há como afirmar que uma agenda mais extensa de negociações não teria levado ao mesmo êxito prejudicando menos a rotina acadêmica, e por consequência a vida prática dos alunos.” opina o estudante.
Para que os alunos não fossem tão prejudicados com suas rotinas e estudos, ele também acredita que outras posturas seriam viáveis. “Acho que outras posturas eram cabíveis antes, pra que a greve fosse menos extensa, por outro lado, acho que com todas as tensões, inclusive políticas, ela era inevitável.” conclui.

Segundo semestre só em 2015

As aulas na FAAC da UNESPde Bauru voltaram à normalidade no dia 22 de setembro e o primeiro semestre de 2014 deve seguir até meados de novembro, para o segundo semestre ser finalizado apenas em maio de 2015.

Greve traz prejuízos acadêmicos e financeiros para alunos da UNESP

Quais os pontos positivos e negativos dessa paralisação segundo os estudantes?


Foto: Mobiliza Bauru

No dia 22 de setembro de 2014, a UNESP Bauru viu acabar a greve mais longa em duração de sua história. Após quase quatro meses de paralisação, os docentes aceitaram a proposta feita pelo Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas, e conquistaram reajuste salarial de 5,2%, abono salarial de 28,6% (pelo período sem reajustes) e aumento de R$250,00 para o vale alimentação. Embora nem de longe todos os seus problemas tenham sido resolvidos, pode-se afirmar que professores e funcionários saíram, de certa forma, vitoriosos desse embate penoso contra uma CRUESP quase inflexível.

No âmbito estudantil, porém, o sentimento não foi tão unânime - válido ressaltar que a greve estudantil foi encerrada um mês antes do término da greve geral. Muitos alunos acabaram saindo prejudicados até financeiramente, como a caloura de jornalismo noturno Isabella Marão. Devido ao posto de trainee na agência Jornal Jr., ela teve de transitar entre Bauru e São Paulo (sua cidade natal) várias vezes em curtos períodos de tempo; como não houve semestre para a renovação de sua carteirinha do ônibus, teve de pagar mais caro pelas passagens. Contrária à greve, Isabella diz que manifestações na rua seriam uma alternativa mais eficaz: "(...) A greve dura milênios, não chama tanto a atenção da mídia e uma hora se torna insustentável, com propostas menores sendo aceitas".


Foto: Mobiliza Bauru


Felipe Assis, também aluno do primeiro ano de jornalismo noturno, foi a várias assembleias e votou a favor da greve, que afirma ser um método para atrair atenção pública quanto a questões a seres problematizadas, sendo o pontapé inicial para a resolução delas. Reconhece, porém, que houve falhas ao longo do processo: "Às vezes o pessoal se enrola coordenando uma assembleia, às vezes acontece um mal entendido no meio da ação direta. Mas uma coisa que me incomoda um pouco é o impasse que o movimento estudantil tem por não saber se quer ser representativo ou combativo". Apesar disso, aponta que toda luta é válida, mesmo que greves sejam extenuantes.

Mesmo com essa discordância entre os mais de 7000 alunos da unidade bauruense da UNESP, a reformulação dos calendários (ou a falta dela) parece ter sido um ponto comum de desagrado no pós-greve. Além disso, professores substitutos tiveram problemas contratuais para voltar às atividades no fim de setembro, o que deve complicar ainda mais a situação. Resta agora esperar e observar o quanto a universidade mudará, para o bem ou para o mal.

Maior greve da história das universidades estaduais paulistas

Por Mariana Hafiz


Manifestação contra o arrocho salarial

Professores, alunos e funcionários das três universidades paulistas, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) entraram em greve no dia 27 de maio, após o Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) anunciar, no dia 13 do mesmo mês, o congelamento dos salários de professores e funcionários técnico-administrativos. O motivo apresentado pelo Conselho é o alto nível de comprometimento da folha de pagamentos das universidades, que chega a 105% na USP, 96% na Unicamp e 94% na Unesp. Entretanto, o Fórum das Seis, formado por entidades representativas dessas categorias das três universidades paulistas, exige um reajuste de 9,87% a fim de repor a inflação e ainda somar um aumento real de 3%.

A partir disso, três reuniões foram marcadas, nos dias 13 de junho, 3 de julho e 16 de julho, mas a primeira foi cancelada e nas duas últimas a questão do reajuste salarial não foi discutida, visto que os reitores defendem só discutir sobre isso nos meses de setembro e outubro. Uma outra reunião foi então marcada para o dia 3 de setembro, à qual ambos, Cruesp e Fórum das Seis compareceram, e na qual foi apresentada a proposta de reajuste de 5,2% para as categorias das três universidades cujos salários estavam congelados. Após consideração, o reajuste foi aceito e começaram os indícios do final da greve.

A questão do congelamento dos salários está baseada numa situação ainda mais grave, pois as três universidades paulistas têm os seus orçamentos oriundos da distribuição de 9,57% do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Neste ano, porém, os gastos universitários excedem a previsão de recursos vindos do ICMS, o que implica, no caso da USP, na necessidade de retirar pelo menos R$ 575 milhões do seu fundo de reserva. O problema é que a alíquota de 9,57% foi estabelecida em 1995 e, desde então, não sofreu alterações, enquanto as universidades passaram por transformações: desde 1995 aumentaram os números de vagas para graduação, pós-graduação e doutorado ao mesmo tempo que o número de funcionários também cresceu. Vale lembrar, também, que até 2013 houve ampliação nos campi das três universidades.
Sobre as propostas de solução do Governo Estadual, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado não se estendeu, alegando respeito à autonomia universitária. Já o candidato à reeleição, Geraldo Alckmin, afirma que a crise atual é temporária e que se solucionará a partir do momento em que a economia crescer, pois quando isso acontecer a arrecadação do ICMS também subirá. Entretanto, essa argumentação foi desconstruída pelo atual Secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Andrea Sandro Calabi, ao dizer que o problema está na gestão das finanças, pois a arrecadação do ICMS não diminuiu nos últimos anos, ela na verdade aumentou em 6,2% de 2012 para 2013.

Visto que a greve foi uma das mais extensas já vistas nos últimos anos – durou cerca de quatro meses - e que sua adesão, por mais que tenha sido parcial, porque algumas faculdades não suspenderam suas aulas, as consequências para os alunos já são preocupantes. Apesar de a greve não influenciar em nenhum âmbito o vestibular, o calendário das universidades foi alterado de modo que o segundo semestre de 2014 se encerrará apenas em maio de 2015, atrasando todo o ano letivo. Sob outra perspectiva, porém, uma manutenção estatal foi atingida, com o reajuste de 5,2% sendo efetuado em duas parcelas, a primeira em outubro e novembro desse ano e a segunda em janeiro de 2015. A partir disso, as categorias consideram o movimento grevista vitorioso.


Manifestações em Presidente Prudente - SP


Chega ao fim greve na Unesp de Bauru

A maior greve da história da Unesp, com 4 meses de duração, trouxe mais benefícios aos professores do que aos alunos.
Por Caroline Mazzer de Souza


Cartazes evidenciam a insatisfação dos alunos (Foto: Lara Pires)

A greve na Unesp de Bauru teve início no dia 22 de maio, quando foi lançada uma proposta pelo Conselho de Reitorias das Universidades do Estado de São Paulo, (CRUESP) de reajuste salarial de 0%.  O movimento contou com a adesão de professores, funcionários e alunos que reivindicavam aumento salarial, melhorias na infraestrutura do campus e a abertura do Restaurante Universitário.
           
Após esse período houve duas propostas feitas pela Reitoria da Universidade. A primeira ocorreu no dia 4 de agosto, quando foi oferecida a concessão de um abono de 21% sobre o salário do mês de julho e o aumento no valor do vale alimentação, de R$ 600,00 para R$ 850,00.  A segunda proposta ocorreu somente no dia 18 de setembro, para confirmar um abono salarial de 28,6% ainda no mês de setembro, um aumento do vale alimentação e um reajuste salarial dos funcionários de 5,2%.
Contudo, o fim da greve só foi decretado no dia seguinte, 19, depois de uma assembleia unificada com docentes e servidores técnico-administrativos, na qual se decidiu acatar a proposta da reitoria após a última negociação com o Adunesp e Sintunesp.

As aulas retornaram na segunda-feira, dia 22 de setembro, encerrando a greve de maior duração da história da Unesp, quase 120 dias. Esse longo período aponta para um possível processo de privatização das Universidades públicas paulistas, uma vez que, foram veiculadas possíveis propostas para o início da cobrança de mensalidades.

Segundo Juarez  Xavier, professor e coordenador do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Unesp de Bauru, a lógica da privatização iniciou-se nos anos de 1990, e ainda está em curso. “O processo de privatização das Universidades públicas acontece via fundações, que oferecem cursos pagos e remunera o docente com salários melhores. Outro expediente é o estímulo à obtenção de financiamento em agências de fomento [FAPESP, Capes, CNPq], cujos recursos remuneram a pesquisa e o docente. A articulação dessas ações reduz as obrigações do estado com a instituição, e inibe o aprofundamento das políticas públicas, como as cotas raciais e sociais”.

Um dos poucos benefícios conquistados pela greve foi o reajuste salarial de professores e funcionários da universidade. Já as reivindicações feitas pelos alunos não foram atendidas, entre elas, a abertura do restaurante universitário, que continua sem funcionar. Outro aspecto questionado pelos alunos era o corte de bolsas dos projetos de extensão, mas também nada foi resolvido. Ainda segundo o Prof Dr. Juarez Xavier, “houve a restrição das bolsas e ela prevalece no momento. Contudo, como os projetos são pagos com o dinheiro público, a tendência é termos a médio e longo prazo melhores projetos, voltados para a população da periferia das cidades em condições mais vulneráveis”.

Os bolsistas das Bolsas de Apoio Acadêmico e Extensão (BAAE) foram prejudicados com a paralisação, pois terão seus benefícios encerrados em dezembro, desconsiderando-se o período da greve. Outro prejuízo foi o atraso do calendário escolar. Segundo o aluno Klaus Aires, esse atraso acarreta traumas políticos que afastam os alunos do interesse na vida universitária. Para ele, “a defasagem do calendário causa grandes danos, como mais gastos para quem paga aluguel ou transporte fretado, perda no desempenho acadêmico e aprendizado em sala, alunos que se formariam esse ano perdem concursos públicos e trainees que às vezes demoram um ano pra acontecer novamente.” Dessa forma, a greve em geral trouxe somente a concessão do reajuste salarial e a conquista de uma formação sindical sólida prejudicando alunos e até alguns professores.


Grevistas acusam governador de sucatear universidades Foto- Solon Neto-Participi


Insatisfação dos alunos com o corte de bolsas de projetos de extensão (Foto: Lara Pires)



Greve da UNESP e USP causa prejuízo econômico em Bauru

Cai o movimento no setor terciário próximo aos estudantes

A Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) e a Universidade de São Paulo (USP) possuem um dos seus câmpus instalados na cidade de Bauru. As duas universidades são algumas com destaque na área de educação na cidade, que conta também com outros nomes relevantes como a Universidade do Sagrado Coração (USC), o Instituto de Ensino Superior de Bauru (IESB), a Instituição Toledo de Ensino (ITE), a Universidade Paulista (UNIP), a Faculdade Fênix, as Faculdades Integradas de Bauru (FIB), entre outras. Tais universidades compõem um quadro de 20 mil alunos, um número expressivo diante da população local de 362 mil habitantes.

A maioria destes estudantes não é de Bauru e acaba exercendo influência na cidade com a sua presença.  Exemplos disso são, no âmbito acadêmico, os projetos de extensão e pesquisa voltados para aumentar o bem estar social. Já no campo econômico, os estudantes são responsáveis por movimentar o setor terciário frequentando supermercados, bares, lanchonetes, restaurantes e shoppings, além de utilizarem serviços como táxis e salões de beleza, fomentarem o setor imobiliário e eventualmente o hoteleiro com visitantes à cidade em Congressos, Seminários e Encontros acadêmicos.

O professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP (Faac) Juarez Xavier destaca que pelo fato de Bauru ser uma cidade universitária, os estudantes afetam diretamente a vida na cidade: “As universidades, especialmente, as públicas em cidades médias e pequenas acabam tendo grande participação no PIB. Para exemplificar, além de Bauru, temos Campinas, São Carlos entre outras cidades do interior paulista. Logo, tudo o que acontece na universidade implica na cidade”.

Diante deste quadro, a greve das duas universidades públicas paulistas instaladas na cidade, UNESP e USP, ocorrida entre os meses de maio a setembro gerou prejuízos para os setores de serviços mais próximos aos estudantes. Cada universidade com seis mil e mil alunos respectivamente, a cidade deixa em média de arrecadar R$ 8.7500,00 por mês – a greve aproximou-se dos quatro meses – considerando que cada estudante tem uma média de gastos entre R$ 1000 e R$ 1500 com aluguel, alimentação transporte e lazer.Alguns comerciantes ligados a esses setores ressaltam que embora o prejuízo não tenha atingido valores altos particularmente, ele ocorreu e não há como recuperá-lo.

Um dos mais afetados com a ausência dos alunos foi o Restaurante da UNESP administrado pela empresa Nutricom. O gerente administrativo Sr. Adenoni explica: “A greve afeta principalmente os funcionários. O custo fixo de aluguel, por exemplo, não é passível de cortes, então a demissão de funcionários aparece como saída. Nessa greve houve demissão de 50% do nosso quadro de trabalho, mas os ainda disponíveis na época de volta às aulas foram recontratados”. Seu Adenoni completa: “A greve causa prejuízo porque nas férias nós estamos preparados para a ausência de movimento, mas na greve, nem sempre. Temos de manter o restaurante aberto pelo menos durante o período diurno, como exige nosso contrato”. O gerente ainda explica que, apesar de alto, este prejuízo não prejudica extremamente, pois é algo que se deve prevenir com cauções financeiros ao se estabelecer uma empresa.

De acordo com o Secretário de Economia e Finanças de Bauru, Marcos Roberto da Costa, a economia bauruense encontra seu forte na prestação de serviços com proeminência do setor educacional, de cobranças e gráfico, não possuindo forte indústria. Marcos, ao olhar a greve por seu viés econômico, avalia que a perda não se recupera: “O prejuízo às vezes pode ser recuperado no período que seria de férias, mas o calendário acaba sendo modificado e há o encurtamento do semestre, o que implica menos tempo da presença dos estudantes na cidade e, por consequência, os gastos que teriam aqui acabam acontecendo em sua cidade natal. Para completar o quadro, a maior duração desta greve, se comparada a outras anteriores, aliada a um período econômico difícil no país provocou maior impacto”.

Segundo o professor Juarez, a greve foi eficiente como instrumento de ação política: Após o período, houve um aumento de 5,2% dos salários dos docentes e funcionários, além da ampliação de outros benefícios. Evitaram-se cortes de professores, foi reaberto o debate sobre a permanência estudantil através do aumento de vales alimentação e moradias e garantiu-se a inauguração do Restaurante Universitário.

Houve, no entanto, significativos aumentos na alimentação e transporte despendidos pelos alunos. O restaurante responsável por servir o almoço, jantar e salgados aos alunos da Universidade Estadual Paulista reajustou seus preços: o almoço passou de R$ 19 o quilograma da comida para R$ 19,70. O salgado também subiu de R$ 3,30 para R$ 3,50. O valor do transporte público sofreu um reajuste na passagem em R$ 0,20. As corridas de táxi também ficaram mais caras, porque o movimento caiu cerca de 10 a 15% na greve. No entanto, tais aumentos, garantem os responsáveis, foram provocados pela inflação do país, estipulada em 6%.

Ainda assim, alguns dos estudantes que ficaram o período de greve fora, não esperavam o valor desse reajuste. A estudante Camila Nishimoto conta: “Eu não esperava este aumento, mas é bem compreensível, já que os serviços da própria UNESP e os terceirizados (como as cantinas e o restaurante) sofreram bastante com o prejuízo causado pelos quatro meses de quase nenhum movimento na universidade”. Camila garante que o aumento trará impacto na sua vida financeira: “Haverá um gasto maior com o meu almoço, por exemplo, o que vai direcionar um valor a mais de dinheiro que não era necessário antes, um dinheiro que poderia ser gasto em outra coisa ou nem ser gasto”.

O estudante João Pedro Delarco conta que, devido ao aumento de mais de 10% no preço do almoço no restaurante, seu prato está ficando agora quase R$ 1 mais caro do que antes: “Num total, só com o gasto de alimentação, a semana está saindo, em média, de 3 a 4 reais mais cara. Eu esperava o aumento, afinal, foram quase quatro meses de paralisação. Só não acreditava que seria tão grande”. Atualmente, João Pedro satisfaz-se com as comidas congeladas que traz de sua cidade de origem, próxima a Bauru, para reduzir os gastos: “Como moro perto da UNESP, posso voltar e almoçar em casa, me policiando para não gastar muito além do aceitável e possível”.

Já o estudante Matheus Moura vê o reajuste como uma consequência da inflação, mas também como um aproveitamento da greve para subir os preços por ser um momento em que o campus está vazio: “Acho que a data do reajuste ocorreu propositalmente numa época em que havia menos chance de alguém contestar os valores, pois o movimento na universidade estava bem menor. Meu dinheiro é contado, então qualquer ajuste maior em alguma parte do orçamento, principalmente em serviços essenciais como os ligados à faculdade, implicam em gastos maiores, que precisarão ser cortados de alguma outra parte”.

A greve se apresenta como um momento desastroso para a economia e, como explica o professor Juarez, não só para ela: “Perdem os professores, que têm seus projetos atrasados, perde a universidade: a tendência no próximo ranking de instituições de ensino superior é que a UNESP e USP caiam um pouco, o que provoca consequências como a perda de convênios com universidades do exterior. Perde os alunos, que atrasam sua formação e sua produção intelectual, perde a cidade em vigor cultural e inovação provocados pelos alunos. E perde o estado a credibilidade do seu plano educacional”. No entanto, Juarez ainda ressalta que se pode ganhar uma melhora não só da universidade pública, mas da própria infraestrutura da cidade, que, através da pressão dos alunos, pode obter novas políticas sociais, além da presença de graduados e doutores gerados por esses centros de formação acadêmica que servem à cidade profissionalmente.

A greve ocorrida em 2014 foi a mais longa da história das universidades públicas paulistas e exibiu no seu desenrolar as entranhas da universidade e mostrou que há cada vez mais posicionamentos críticos em busca de um ensino de mais acessível e de maior qualidade para todos.

Divergência de opiniões sobre a maior greve das universidades de São Paulo

Com início em maio e final em setembro, a greve foi marcada pelo descaso das Reitorias

Por Thainá Zanfolin



Foto: Marcos Bezerra/ Futura Press/Estadão Conteúdo

Iniciada em 21 de maio deste ano e com término em 19 de setembro, a greve de professores e funcionários pela qual as universidades estaduais paulistas passaram foi a maior da história. O principal protesto era contra o reajuste salarial de zero por cento anunciado pelo CRUESP (Conselho de Reitorias das Universidades do Estado de São Paulo), o que acarretaria no congelamento dos salários de servidores técnico-administrativos e docentes das instituições. Além deles, os alunos também entraram em greve em vários câmpus das três universidades – USP, UNESP e Unicamp – pedindo por maior investimento nas universidades, entre outras reivindicações.

Após três meses, no final da greve, docentes e funcionários, apoiados pelos estudantes, conquistaram reajustes de 2,57% nos meses de setembro e dezembro e ainda 28,6% de abono sobre o salário de um mês. Essas negociações foram sob mediação do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e o resultado foi comemorado pelos grevistas. As reivindicações dos professores e funcionários eram principalmente pelo reajuste salarial, em razão do arrocho acumulado desde o ano passado, quando a reitoria assumiu o compromisso de pagamento de um percentual de 3% mas não cumpriu com o combinado.

Além do reajuste salarial, outros pedidos também estavam em pauta nas negociações, como a melhoria do ensino, a retomada de projetos de extensão, mais transparência no orçamento das universidades, melhorias da infraestrutura e o aumento do financiamento de pesquisas feitas pelas universidades. As reitorias das três universidades justificam o arrocho salarial que foi anunciado alegando que as instituições não têm mais condições orçamentárias para conceder os aumentos exigidos e que os orçamentos já estão completamente comprometidos com a folha de pagamento. No caso da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, o reitor anunciou que 105,5% da verba vai para o salário de docentes e funcionários, enquanto na Universidade Estadual Paulista (UNESP) e na Universidade de Campinas (UNICAMP) essa porcentagem é de 95,2% e 96,8%, respectivamente.


As atividades promovidas pelos professores e funcionários durante a greve foram palestras, debates e atos públicos. A decisão de greve foi tomada em assembleia tanto para os professores, funcionários e estudantes nos locais onde estes aderiram ao movimento. Na UNESP, em vários câmpus houve adesão dos estudantes à greve, apoiando aos professores e reivindicando questões que implicam em sua vivência na universidade. Na UNESP Bauru, os alunos entraram ao movimento no dia 28 de maio pedindo pelo fim do corte de orçamento destinado a projetos de extensão, pelo aumento de vagas de moradia estudantil e pela abertura do restaurante universitário, prometido há quase vinte anos e que ainda não entrou em funcionamento.

Durante a greve estudantil, reuniões, palestras, atos públicos e mobilizações foram as principais atividades promovidas pelo Movimento Estudantil do campus. A assembleia dos estudantes para a decisão de adesão à greve teve a presença de 350 pessoas, porém muitos alunos permaneciam contrários à greve estudantil.

A decisão de adesão à greve dividiu opiniões entre as outras classes também. Roseli Cristina Nonato Pitondo, funcionária do Departamento de Ciências Humanas na UNESP Bauru, era favorável à greve por acreditar ser esse o único instrumento que os funcionários e professores dispõem na luta pelos seus direitos. Para Marcos Guaraldo, funcionário da seção de graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Artes e Comunicação, também da UNESP Bauru, os pedidos feitos por todas as classes são válidos, mas havia outras formas de reivindicação que poderiam ter sido usadas. “No caso da administração, atraso no trâmite de documentações e atividades, priorização de serviços locais e detrimento dos da reitoria, paralisações, entre outras, medidas seriam mais efetivas”, afirma.

Enquanto o professor Juarez Xavier era favorável à greve, o professor de Sociologia na UNESP Bauru, Murilo César Soares era contrário. Este, mesmo de acordo com todas as reivindicações, acreditava que elas poderiam ter sido feitas de outras formas, como paralisações para um período de debate, mobilizações, manifestações e utilizar os recursos da mídia, entre outras coisas. “Eu era contrário porque acredito que na universidade pública Paulista, há representantes docentes e de funcionários em todos os níveis da administração, ou seja, há espaço para uma interlocução produtiva com a reitoria, sem necessidade de greve. Além do mais, a greve deve se o último recurso na relação trabalhista, mas na Unesp se banalizou, de modo que os trabalhadores param antes de tentar outros meios”, afirma.

As principais consequências da greve para os favoráveis foram o aumento da compreensão da instituição e a possibilidade das universidades atenderem as necessidades de formação de bons profissionais e bons cidadãos. Para os contrários, houve também consequências negativas. “Os maiores prejudicados foram os estudantes e suas famílias. Mas é preciso pensar também na própria universidade, que é preciso preservar, porque uma greve de cem dias por ano destrói qualquer instituição que queira ser séria. Hoje o corporativismo estrito constitui uma ameaça ao desenvolvimento da universidade brasileira”, afirma Murilo Soares. Para Guaraldo, funcionário, as principais consequências foram atrasos nas atividades acadêmicas e administrativas e a sobrecarga no retorno ao trabalho.

Para os grevistas, a situação foi tratada de maneira hostil pela reitoria. Segundo alguns funcionários e professores, as discussões só demoraram a ocorrer por conta do descaso dos reitores sobre a situação. Alguns acontecimentos, como remarcação de reuniões, adiamento de discussões e a presidente da CRUESP, Marilza Vieira Cunha Rudge, entrar em férias no meio do período de negociações, foram um exemplo dado para esse descaso.

A greve terminou em setembro após a negociação de professores e funcionários, obtendo-se o reajuste salarial para setembro e dezembro e abono sobre um salário, entre outros ganhos. A greve estudantil terminou antes da greve dos outros setores, em 19 de agosto. A decisão de terminar a greve estudantil foi por conta da baixa adesão dos estudantes, sendo que as reivindicações não foram atendidas. Na imprensa nacional e regional pouco se mostrou sobre a greve das universidades públicas estaduais. Segundo entrevistados, além da pouca cobertura, as matérias sobre o assunto eram parciais e mostravam de maneira negativa os grevistas.

Mapa da greve Unesp (Divulgação)


Greve influencia desistência de alunos

Por: Victor Pinheiro

Apesar de conquistas, paralisação contribui para aumento de vagas ociosas
A greve dos professores e funcionários, que suspendeu por mais de cem dias as aulas na UNESP, USP e UNICAMP, afetou a vida acadêmica de alunos dessas instituições. O episódio aconteceu após as reitorias das universidades anunciarem o congelamento dos salários de funcionários e professores.

Após negociações com as reitorias, os grevistas conquistaram aumento de 5,2% no salário, abono de 28% referentes aos dias de paralisação e acréscimo de R$250,00 no valor do vale alimentação.
Apesar disso, a greve afetou a vida acadêmica dos alunos das universidades. Além do atraso na formação e despesas com permanência estudantil, também influenciou na desistência de curso por parte de alguns alunos. Segundo dados do Departamento de Graduação da FAAC – Unesp Bauru, no primeiro ano de jornalismo diurno na Unesp, oito meses após o início das aulas, cinco dos 40 alunos ingressantes abandonaram o curso, quatro deles durante o período de paralisação.

Um dos estudantes que deixaram as aulas de jornalismo é Edward Procópio Júnior. Ele explica que “já não estava empolgado com o curso e a greve facilitou o processo de desistência”. O jovem diz ainda que não houve pressão familiar, apesar de sua mãe ter ficado impaciente e decepcionada com a instituição. Porém, Edward ressalta que a decisão de sair foi toda dele.
No caso de Isabella Cintrão, também de jornalismo, a situação é semelhante. A moradora de Araraquara diz não ter gostado do curso e que não sofreu com pressão familiar. Mas destaca: “Em certo ponto a greve serviu para colocar os pensamentos em ordem e ver se a desistência era mais correto a se fazer.”

Vantagens

Apesar dos reflexos negativos, para a aluna do primeiro ano de jornalismo, Laura Botosso, a greve também impactou positivamente na vida dos alunos. Segundo a graduanda, a paralisação serviu para conscientizar os alunos sobre os rumos que a universidade está tomando, principalmente na questão de precarização do ensino público, além de abrir espaços para debates políticos na instituição.
Laura ainda comenta o resultado da greve: “Apesar da própria greve ter seus prejuízos, principalmente para os alunos, eu acho importante os professores lutarem pela melhoria da universidade pública e mesmo que a conquista tenha sido só salarial, já foi um ganho, fortaleceu o movimento”.

Vagas ociosas

As vagas ociosas, resultado das desistências, podem ser preenchidas por transferências internas ou externas. No caso da Unesp, o edital deve ser publicado no dia 19 de dezembro. Os alunos transferidos iniciam as atividades acadêmicas a partir do começo do próximo semestre letivo do curso escolhido.

Apesar da baixa adesão estudantil, alunos e professores se uniram durante greve

A paralisação que durou cerca de 120 dias nas universidades estaduais de São Paulo teve apoio dos estudantes no campus da UNESP-Bauru
Por:  Matheus Ferreira


Maioria vota por greve discente em assembleia geral (Créditos: Mobiliza Bauru)


No final de maio, as universidades públicas gerenciadas pelo governo do estado de São Paulo enfrentaram uma das maiores greves de sua história. Adesões de movimentos estudantis das várias faculdades foram notadas durante o processo de exigências. No campus da UNESP-Bauru, houve adesão dos estudantes, entretanto pequena quando comparada à quantidade de alunos matriculados.
Apesar do estopim da reivindicação ter sido a luta contra o arrocho salarial, consequência do aumento de 0% dos salários de professores e servidores técnico-administrativos, o empenho por qualidade de ensino, segundo o Professor Ângelo Abrantes, docente da Faculdade de Ciências (FC,) foi o que uniu as classes de trabalhadores e de estudantes. “Nós temos que organizar as pessoas que defendem a universidade pública e de qualidade, e os maiores interessados são os próprios alunos” enfatiza o professor.

Perguntado sobre a importância do apoio estudantil, o professor contou que quanto mais se conseguir unificar as lutas, haverá a possibilidade de colocar a universidade pública num padrão de qualidade importante.

A decisão dos estudantes de entrar na greve veio de uma assembleia geral, realizada logo após a deliberação dos docentes. Embora a principal pauta se relacionasse apenas indiretamente com os alunos, a opção por apoio foi clara. "Nós temos as nossas próprias pautas, mas acreditamos que as pautas dos docentes e técnicos estão ligadas ao ensino de qualidade", declara a estudante Júlia Ferreira, membro do movimento estudantil, sobre a entrada do corpo discente no quórum que exigia negociação com a reitoria.

Embora a maioria dos estudantes tenha votado a favor da paralisação, poucos alunos compuseram os atos de manifestação. A baixa adesão dos estudantes aos atos e às reuniões levou o movimento a deixar a greve, mesmo mantendo seu total apoio a luta dos grevistas. "A gente saiu da greve por causa de contingente", comenta Júlia. "O nome pelo nome não nos valia, daí, em assembleia geral, a gente decidiu sair da greve".

Para o professor Ângelo, a saída dos estudantes foi uma resolução séria, porque houve uma mobilização estudantil com baixa adesão. “A falta de participação dos alunos deve ser colocada dentro de um contexto” afirma Ângelo. “Na greve do ano passado, estudantes foram sindicatos, a liderança estudantil sofreu muito” explica. Além dos motivos de opressão à classe estudantil, o fato de a maioria dos estudantes ser de outra cidade contribuiu para o minguado número de representantes discentes na greve.

O movimento estudantil é um instrumento importante no fomento ao debate e principalmente como organização em si. “Somos a categoria que menos tem voz dentro da universidade, apesar de sermos em maior número” destaca Júlia. A união dos estudantes contribui para o fortalecimento de classe, de forma a reivindicar melhorias para a universidade.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...